O lugar

Conta uma popular lenda do Oriente que um jovem chegou à beira de um oásis junto a um povoado e, aproximando-se de um velho, perguntou-lhe:
“Que tipo de pessoa vive neste lugar?”
“Que tipo de pessoa vivia no lugar de onde vens?” – perguntou por sua vez o ancião.
“Oh, um grupo de egoístas e malvados” – replicou o rapaz. “Estou satisfeito por ter saído de lá.”
“A mesma coisa encontrarás por aqui” – replicou o velho.
No mesmo dia, um outro jovem aproximou-se do oásis para beber água e vendo o ancião perguntou-lhe:
“Que tipo de pessoa vive por aqui?”
“Que tipo de pessoa vive no lugar de onde vens?” – perguntou o velho.
“Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter de deixá-las” – respondeu o rapaz.
“O mesmo encontrarás por aqui” – respondeu o ancião.
Um homem que tinha escutado as duas conversas perguntou ao velho:
“Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta?”
Ao que o velho respondeu:
“Cada um carrega no seu coração o meio ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui porque, na verdade, a nossa atitude mental é a única coisa na vida sobre a qual podemos manter controlo absoluto.”

Lutando contra o stress e ansiedade

André tinha motivos para celebrar. Aos 30 anos era gestor de uma grande empresa e passava a vida a viajar em negócios, algo que sempre ambicionara.
Todavia não se sentia feliz nem motivado. Recorreu ao consultório apresentando excesso de peso, exaustão física e privação de sono. Estes sintomas agravavam ainda mais a ansiedade que sentia há meses.
O diagnóstico era de “Burnout” ou Síndrome de Exaustão e recebe este nome por uma boa razão – ao nível celular os nossos corpos tornam-se literalmente inflamados.

Este estado não surge espontaneamente, é antes o resultado de uma condição crónica despertada pela cultura de trabalho ocidental 24/7 que combina um clima de incerteza económica, perfeccionismo e insatisfação.

Os sintomas de stress surgem aqui como um alerta para o perigo. Contudo, o organismo não distingue entre a ameaça de um tigre ou um email enviado pelo seu chefe e acciona os mesmos mecanismos corporais que o alertam para o perigo e o preparam para a fuga. Todas as vezes em que uma das três necessidades de sobrevivência básica não são alcançadas (segurança, recompensa e conexão), a resposta de “luta ou fuga” característica do stress ativa as reações bioquímicas do organismo.

Com o tempo, os efeitos do stress crónico e nocivo fazem-se sentir, refletidos nas nossas escolhas diárias: dificuldade em adormecer, uso de cafeína para nos mantermos despertos, má alimentação, abuso medicamentoso, etc.

No nosso sistema, todos os tipos de stress conduzem a um destino: inflamação – o tal “fogo” nas nossas células. A inflamação é simplesmente a resposta imune protetora a qualquer toxina ou lesão. Basta pensar como a pele recupera de um ferimento – existe um inchaço (edema) e rubor seguidos de formação de cicatriz e cura.

Quando a nossa vida entra neste modo “fazer a qualquer custo”, ativamos os genes que causam a inflamação crónica, a causa da maior epidemia dos nosso tempos: doenças crónicas relacionadas com o estilo de vida tais como obesidade, diabetes, doenças cardíacas, cancro, depressão, ansiedade e outros.

Então o que podemos fazer?

• Crie um hábito, algo que goste de fazer e torne-o parte da sua vida. Isto possibilita uma mudança no panorama geral do seu dia-a-dia porque altera a forma como você se vê (por exemplo começar uma atividade física, logo pela manhã, pode alterar a forma como você lida com o resto do seu dia). Pergunte-se quais são os seus valores e o que realmente o entusiasma? Que tipo de estilo de vida quer abraçar e que valores pode cultivar para se transformar na pessoa que deseja?

• Procure rodear-se de pessoas positivas e bondosas. Criar um hábito pode tornar-se mais simples se o partilhar com outras pessoas. O suporte social é um bónus que pode aumentar a sua qualidade de vida.

• Quando fracassar ou sentir que retoma os velhos costumes, levante-se e trate-se com compaixão. A vida tratará de incluir o novo hábito, não existe outra forma. Existe uma robusta evidência científica que demonstra que ser amável consigo próprio e tratar-se como trataria um melhor amigo, é mais motivador e potenciador de novas coisas do que ser autocrítico.

Tudo o que habita em si

Os preconceitos que delimitam o ser humano são inúmeros e, em grande parte, polarizáveis. Existe o bom e o mau, o certo e o errado, a luz e a sombra.
O objetivo pessoal é, muitas vezes, alcançar um desses polos e permanecer nele, renegando tudo o que possa existir no contrário.
Acontece que nem sempre existe o herói ou o vilão, o caminho certo ou o errado, a iluminação ou a sombra. A maioria das pessoas e dos acontecimentos situam-se entre os dois.
A este propósito relembro Clarice Lispector que dizia:

“Sou companhia, mas posso ser solidão. Tranquilidade e inconstância, pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio.”

Observe para onde se dirige e daquilo que se tenta afastar. Seja gentil com o seu mundo interno e permita-se ser tudo isso com curiosidade e amabilidade. Em vez de rejeitar com tanta pressa aquilo que lhe traz desconforto tente descobrir a utilidade e o potencial de todas as coisas. Poderá ficar surpreendido.