Dor e Amor

Regresse à casa que existe em si e respire profundamente. Entre em contacto com o seu sofrimento e pergunte-se “Por que motivo estou a sofrer? De onde provém o meu sofrimento?”
O seu sofrimento pode reflectir a dor de outros, talvez até dos seus ancestrais ou do meio que o rodeia. A sua dor contém o sofrimento de outras pessoas do seu tempo. Compreendê-la é, de alguma forma, compreender o sofrimento alheio. É muito importante que tenha a coragem de regressar a si e reconhecer a dor que existe no interior e não encobri-la com outras coisas.
Quando reconhecer o que há em si segure-a nos braços como faria com um animal ferido. Talvez seja isto que precisa fazer, talvez seja a primeira coisa a fazer – ter coragem de regressar a casa e reconhecer, abraçar e expandir o seu olhar.
Compreender o seu sofrimento trar-lhe-á alívio e, por conseguinte, libertação. Depois de tomar consciência dessa dor poderá perceber uma sensação de leveza que servirá como espelho a outras pessoas. É este o milagre das relações e o significado do Amor Incondicional.

Adaptado de Thich Nhat Hanh

Merecimento

Existe um passo fundamental entre o desejo e a realização que se chama merecimento. Cultivar a sensação que merecemos aquilo que sonhamos vai para além do óbvio. Merecer implica sentir que as peças da vida possuem a nossa marca e que, por isso, são inegavelmente nossas.
Quando se permite merecer, tudo aquilo que deseja acaba por encontrar um caminho até si. Não é magia nem ficção, é a incontornável lei universal: a vida flui e floresce onde não encontra resistência.

O cortador de pedra

Era uma vez um simples quebrador de pedras que estava insatisfeito consigo mesmo e com a sua posição na vida.
Certo dia, passou em frente à casa de um comerciante abastado.
Através da porta, viu muitos objetos valiosos e luxuosos, bem como importantes figuras que frequentavam a mansão.
“Quão poderoso é este mercador!” – pensou o quebrador de pedras.
Sentiu-se muito invejoso e desejou poder ser como o comerciante.
Para sua grande surpresa, repentinamente tornou-se no comerciante, usufruindo de mais luxos e poder do que jamais tinha imaginado, embora fosse invejado e detestado por todos aqueles que eram menos poderosos e ricos que ele.
Um dia, um alto oficial do governo passou à sua frente na rua, carregado numa liteira de seda, acompanhado por submissos empregados e escoltado por soldados, que batiam gongos para afastar o povo. Todos, não importa quão ricos, tinham de se curvar
à sua passagem.
“Quão poderoso é este oficial!” – pensou. “Gostaria de poder ser um alto oficial!”
E então tornou-se no alto oficial, carregado na sua liteira de seda para qualquer lugar que fosse, temido e odiado pelas pessoas em seu redor.
Era um dia quente de verão e o oficial sentiu-se muito desconfortável na suada liteira de seda. Olhou para o Sol. Este fulgia orgulhoso no céu, indiferente à sua reles presença.
“Quão poderoso é o Sol!” – pensou. “Gostaria de ser o Sol!”
E tornou-se no Sol. Brilhava ferozmente, lançando os seus raios sobre tudo e todos, queimando os campos, amaldiçoado pelos fazendeiros e trabalhadores.
Mas um dia uma gigantesca nuvem negra ficou entre ele e a Terra e o seu calor não mais pôde alcançar o chão.
“Quão poderosa é a nuvem da tempestade!” – pensou. “Gostaria de ser uma nuvem!”
E tornou-se numa nuvem, inundando com chuva campos e vilas, causando temor a todos. Mas repentinamente percebeu que estava a ser empurrado para longe com uma força descomunal e soube que era o vento que o fazia.
“Quão poderoso é o vento!” – pensou. “Gostaria de ser o vento!”
Então tornou-se no vento de um furacão. Soprava as telhas dos telhados das casas, desenraizando árvores, temido e odiado por todas as criaturas da Terra.
Mas em determinado momento encontrou algo que não foi capaz de mover, não importava o quanto ele soprasse lançando rajadas de ar. Viu que o objeto era uma grande e alta rocha.
“Quão poderosa é a rocha!” – pensou. “Gostaria de ser uma rocha!”
Então tornou-se na rocha. Mais poderoso do que qualquer outra coisa na Terra, eterno, inamovível. Mas enquanto lá estava, orgulhoso pela sua força, ouviu o som de um martelo a bater num cinzel sobre uma superfície dura e sentiu-se a ser despedaçado.
“O que poderia ser mais poderoso do que uma rocha?!” – pensou, surpreso.
Olhou para baixo e eis que viu a figura de um simples quebrador de pedras.

A sombra em terapia

Em contexto terapêutico a “sombra” alude a todos aqueles aspetos que suprimimos ou renegamos, consciente ou inconscientemente, para “ajustar” a nossa própria autoimagem ou identidade pessoal. Esta imagem que mostramos sobre nós mesmos tem o propósito de alcançar segurança: física, afetiva e psicológica; ou, dito por outras palavras, desenvolvemos inconscientemente uma identidade pessoal que procura ser aprovada, aceite e reconhecida pelos outros e por nós próprios.

Acontece que a identidade pessoal e a sombra psicológica são duas faces da mesma moeda, dois polos do mesmo processo.
O conflito entre o consciente e o inconsciente gera uma contínua tensão interior. Para amenizá-la gastamos uma tremenda quantidade de energia na contenção da sombra, energia essa que poderia ser empregue num processo de desenvolvimento e expansão da consciência. Por outro lado, a sombra urge por emergir e acaba por fazê-lo através de comportamentos ou mesmo através de sintomas ou doenças.

Quando damos voz à sombra, quando a reconhecemos e aceitamos como parte integrante de quem somos, iluminando-a com a luz do “dar-se conta”, esta perde a sua virulência de forma progressiva. Segue-se então a integração dos aspetos excluídos do self.

A prática de meditação está intimamente ligada a este processo de integração, desenvolvimento e ampliação da nossa identidade, dado que permite trabalhar a permanência e o foco na emoção, ao invés da fuga, a não repressão e a não identificação. Em meditação emerge progressivamente um estado de consciência que permite ver e acolher o mundo exterior e interior.

A meditação permite revelar um novo olhar que acolhe, concilia e unifica, facilitando a contemplação de toda a polaridade como uma dança criativa em que é amorosamente acolhida e silenciosamente celebrada.