Dor e Amor

Regresse à casa que existe em si e respire profundamente. Entre em contacto com o seu sofrimento e pergunte-se “Por que motivo estou a sofrer? De onde provém o meu sofrimento?”
O seu sofrimento pode reflectir a dor de outros, talvez até dos seus ancestrais ou do meio que o rodeia. A sua dor contém o sofrimento de outras pessoas do seu tempo. Compreendê-la é, de alguma forma, compreender o sofrimento alheio. É muito importante que tenha a coragem de regressar a si e reconhecer a dor que existe no interior e não encobri-la com outras coisas.
Quando reconhecer o que há em si segure-a nos braços como faria com um animal ferido. Talvez seja isto que precisa fazer, talvez seja a primeira coisa a fazer – ter coragem de regressar a casa e reconhecer, abraçar e expandir o seu olhar.
Compreender o seu sofrimento trar-lhe-á alívio e, por conseguinte, libertação. Depois de tomar consciência dessa dor poderá perceber uma sensação de leveza que servirá como espelho a outras pessoas. É este o milagre das relações e o significado do Amor Incondicional.

Adaptado de Thich Nhat Hanh

O cortador de pedra

Era uma vez um simples quebrador de pedras que estava insatisfeito consigo mesmo e com a sua posição na vida.
Certo dia, passou em frente à casa de um comerciante abastado.
Através da porta, viu muitos objetos valiosos e luxuosos, bem como importantes figuras que frequentavam a mansão.
“Quão poderoso é este mercador!” – pensou o quebrador de pedras.
Sentiu-se muito invejoso e desejou poder ser como o comerciante.
Para sua grande surpresa, repentinamente tornou-se no comerciante, usufruindo de mais luxos e poder do que jamais tinha imaginado, embora fosse invejado e detestado por todos aqueles que eram menos poderosos e ricos que ele.
Um dia, um alto oficial do governo passou à sua frente na rua, carregado numa liteira de seda, acompanhado por submissos empregados e escoltado por soldados, que batiam gongos para afastar o povo. Todos, não importa quão ricos, tinham de se curvar
à sua passagem.
“Quão poderoso é este oficial!” – pensou. “Gostaria de poder ser um alto oficial!”
E então tornou-se no alto oficial, carregado na sua liteira de seda para qualquer lugar que fosse, temido e odiado pelas pessoas em seu redor.
Era um dia quente de verão e o oficial sentiu-se muito desconfortável na suada liteira de seda. Olhou para o Sol. Este fulgia orgulhoso no céu, indiferente à sua reles presença.
“Quão poderoso é o Sol!” – pensou. “Gostaria de ser o Sol!”
E tornou-se no Sol. Brilhava ferozmente, lançando os seus raios sobre tudo e todos, queimando os campos, amaldiçoado pelos fazendeiros e trabalhadores.
Mas um dia uma gigantesca nuvem negra ficou entre ele e a Terra e o seu calor não mais pôde alcançar o chão.
“Quão poderosa é a nuvem da tempestade!” – pensou. “Gostaria de ser uma nuvem!”
E tornou-se numa nuvem, inundando com chuva campos e vilas, causando temor a todos. Mas repentinamente percebeu que estava a ser empurrado para longe com uma força descomunal e soube que era o vento que o fazia.
“Quão poderoso é o vento!” – pensou. “Gostaria de ser o vento!”
Então tornou-se no vento de um furacão. Soprava as telhas dos telhados das casas, desenraizando árvores, temido e odiado por todas as criaturas da Terra.
Mas em determinado momento encontrou algo que não foi capaz de mover, não importava o quanto ele soprasse lançando rajadas de ar. Viu que o objeto era uma grande e alta rocha.
“Quão poderosa é a rocha!” – pensou. “Gostaria de ser uma rocha!”
Então tornou-se na rocha. Mais poderoso do que qualquer outra coisa na Terra, eterno, inamovível. Mas enquanto lá estava, orgulhoso pela sua força, ouviu o som de um martelo a bater num cinzel sobre uma superfície dura e sentiu-se a ser despedaçado.
“O que poderia ser mais poderoso do que uma rocha?!” – pensou, surpreso.
Olhou para baixo e eis que viu a figura de um simples quebrador de pedras.

Mindfulness e Pânico

A ansiedade suaviza quando criamos um espaço entre nós e aquilo que estamos a experienciar. Segundo V. Frankl entre o estímulo e a resposta existe um espaço. Nele reside a nossa liberdade e o nosso poder de escolha ou resposta. Na nossa resposta reside o crescimento pessoal e a felicidade.

Quando reagimos de forma automática e não-consciente, os comportamentos cristalizam-se em hábitos que são prejudiciais para a nossa saúde. Consequentemente, estes padrões de reatividade aprofundam o nosso sofrimento ou distress (o mau stress). Aqui reside a importância de discernir claramente a diferença entre reagir de forma inconsciente e responder com Atenção Plena. Quando nos tornamos conscientes do momento presente ganhamos acesso a recursos que nem sabíamos existir. Podemos não ser capazes de alterar uma situação mas podemos, conscientemente, alterar a nossa resposta perante ela. Podemos escolher uma forma mais produtiva e construtiva de lidar com o stress em vez de nos deixarmos dominar e consumir por ele.

Em relação ao Pânico, quando se torna consciente que está a experienciar um ataque de pânico, pode começar a responder de uma forma a diminuir a intensidade em vez de inflamá-la ou alimentá-la. À medida que a sua prática de Atenção Plena se aprofunda, pode gradualmente prevenir a ocorrência dos ataques de pânico e sentir-se mais à vontade consigo próprio e com o espaço que ocupa no mundo.

Lembre-se, não existe outro lugar para estar, ou outra coisa que necessite fazer, do que estar Aqui e Agora.

Relações

Um dos grandes caminhos de desenvolvimento pessoal e, por seu turno, de tomada de consciência prende-se com a forma como nos relacionamos.
Como me relaciono com o outro? Com um amigo, familiar, namorado(a), marido ou mulher?
“Como me relaciono?” seria a grande pergunta a colocar por forma a ampliarmos o foco da nossa visão – como e desde onde me relaciono?

Uma das crenças que trazemos é a do modelo de companheiro ideal. Esta crença revela-se altamente limitadora e destrutiva nos relacionamentos e urge compreender que o modelo de relação deve ser construído pelo próprio sujeito, a cada instante.

De que forma podem as nossas relações refletir o próprio nível de maturação pessoal e evolutivo no momento atual? Será a relação um espelho e, por isso, uma janela de oportunidade para uma tomada de consciência?
Não existe o correto ou o errado, o foco deve ser colocado na valorização desse reflexo.

Revisitar o ideal que possuímos ajuda-nos a empreender dois grandes caminhos. O primeiro é o de tornarmo-nos nessa pessoa que almejamos encontrar externamente. Neste ponto pode questionar-se “como posso desenvolver estas qualidades em mim?”; o outro aspeto está relacionado com a amabilidade e a convivência saudável com a solidão. Estar sozinho e conviver connosco próprios é fundamental dentro e fora de um relacionamento.
A compreensão e integração deste auto-relacionamento pode ser a chave para um caminho a dois.